quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O MEU ERRADO E O ERRADO DELES

Talvez o melhor pra começar esse post-reflexivo seja te fazer uma pergunta: quantas vezes você defendeu um ponto de vista que fosse desvantajoso pra você?
Vamos, lá, refraseando: no campo dos argumentos, trocando idéias ou debatendo algo, quantas vezes você já tomou partido de uma idéia que, se aplicada na prática, tiraria algum benefício seu?
Você já vai entender onde quero chegar.
No campo da argumentação, dos fundamentos, das razões, parece haver uma quase infinita flexibilidade.
Podemos falar no erradinho e no erradão.
Eis o conceito deles: o erradão é aquele que os outros estão cometendo. Eles estão infringindo a lei, a ética, a moral, são atitudes inaceitáveis, repreensíveis, condenáveis.
Já o erradinho é diferente, porque ele apareceu no seu espelho. E a partir do que ele vestiu suas roupas, dormiu na sua cama e comeu no seu prato, ele passa a ser defensável, relativo, tolerável.
Vamos exemplificar pra não deixar o gaiteiro solando no improviso.
Pra isso, vamos usar o campo das leis. Digamos que você está viajando no feriado. Fez aquela mala apressada porque estava sem tempo pra se planejar muito, saiu mais tarde do trabalho, e a diária ou o aluguel de sua hospedagem já estão em andamento.
Aí você pega uma estrada meio engarrafada, com a família no carro, os filhos perguntando "papai, tá chegando"a cada 12 segundos. Olha para frente, uma fila que parece começar no Cazaquistão, olha para o lado, um gordo seboso tirando tatu do nariz. Você pensa: "eu não pertenço a esse lugar e esse momento, meu São Onofre." Aí, olha pro lado, e incrivelmente, existe uma pista livre. Ela se chama "acostamento-highway", ou pelo menos deveria se chamar, já que tem tanta gente passando por ali. Por um momento você pensa: "ah, eu não vou ser o único palhacinho que vai ficar esperando nessa fila", vira o volante e entra na via livre e que pasmem, anda (até parar logo ali na frente, claro).
Apesar de você ter feito isso sob a justificativa de que não ia ser o único pateta a ficar esperando no imenso impedimento de movimento chamado fila, a maioria esmagadora ficou na fila. Mas você não, afinal, você é espertão, papai te ensinou a malandragem da vida, e com isso você volta e meia se dá bem.
Nesse ponto, se você é realmente daqueles que andam pelo acostamento, esquecendo que vive em sociedade e achando que nenhuma ambulância, polícia ou bombeiros pode precisar daquele acesso, ou se você acha que o mundo de panacas que ficou te olhando passar sempre serão os tolinhos dessa vida, você já deve estar mentalmente se defendendo.
Alguns argumentos são possíveis:
"Tem tanto bandido solto, que mal tem andar pelo acostamento?"
"Eu sou um pai dedicado e até pago meu imposto de renda (mais ou menos), então furar essa fila imensa não machuca a aura de santo nenhum."
"Ah, que se dane, nem vou pensar em nada, só estou sem saco de ficar aqui parado."
Mesmo que consideremos que podemos eleger como errado as ofensas ás pessoas em particular ou à sociedade em si, ou seja, mesmo que você esteja achando que meu exemplo foi infeliz, pode usar o seu. Só aplique a mesma regra: ser você estivesse de fora, diria que está errado. Mas de dentro, você pode dizer que nem faz diferença ou que é justificável, ou que uma ou umaS vezes só não faz mal, e por aí vai.
Muita gente tem dito que o Brasil sofre de uma doença crônica (e não aguda, mas crônica sim), que se chama felxibilidade moral.
Eu digo que isso não é coisa do Brasil, é coisa do ser humano.
Claro, há nações conseguem ser menos flexíveis, numa média. Você até pode ver um executivo japonês, cuja corrupção foi descoberta, fazendo um harakiri, mas tenha certeza, tem muito japonês dando seu jeitinho também. Por isso, esse devaneio deve ser pessoal, vamos esquecer a galera.
A galera é burrinha, a galera quebra e ateia fogo em ônibus, a galera saqueia quando o Estado desaparece.
Por incrível que pareça, a galera é feita de indivíduos, mas a soma dos indivíduos não forma a turba... (isso é conceito de um pensador, que não cito agora pois não pesquisei pra identificar o cabra.)
Então vamos pensar em mim e em você.
Vamos ser adultos e parar de defender o erradinho.
A verdade conveniente demais, só pode ser mentira.
Verdade oportunista, verdade conveniente, pode certamente ser chamada de meia-mentira pelo menos.
Em outras palavras, pra que essa paranóia de querer sempre estar certo?
Esteja errado, assuma o errado, realize assim o pilar da psicoterapia chamado auto conhecimento... (é, eu também já frequentei divã).
É cansativo se observar ou observar os outros defendendo alguma coisa que, numa visão kantiana, está errado e pronto.
Obviamente, existem errados gerais e errados particulares.
Existem coisas que funcionam pra você e não funcionam pra mim, e vice-versa.
Mas andar no acostamento, sonegar impostos, subornar o guarda, furar a fila, jogar cigarro na rua, estacionar ocupando duas vagas, roubar sinal de tevê a cabo, perceber que faltou alguma coisa na conta do restaurante e não falar nada, trair seu marido ou mulher, e tantos outros erradinhos (ou erradões, sempre depende do lado que você está)...
Talvez a partir disso seja mais fácil viver, ou seja, se você realmente acredita que consegue administrar os seus erradinhos, mesmo que você continue achando que eles não são errados, boa sorte na técnica de contenção eterna.
Acreditar que você poderia estar fazendo coisa bem pior não melhora o que você está fazendo. Acredite, nesse caso, não existe relação entre o que você deixou de fazer e o que você está fazendo.
Só existe uma coisa: o que se materializa, o que veio ao mundo dos fatos.
Por último, apenas pra falar de um clássico da auto-indulgência, é bom lembrar que comparação não salva sua pátria. Muita gente defende seus erros dizendo: "ah, eu estou fazendo isso, mas mo mesmo jeito, eles estão fazendo aquilo..."
Outra criancice da nossa mente é se justificar comparativamente, ou seja, é achar coisas análogas ou similares que também estão erradas e que você não está fazendo.
ORA, SEU BOCO MOCHO, A ÚNICA COISA QUE IMPORTA PRO SEU MUNDO É O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO.
O pensamento "ah, todo mundo tem seu vício e por isso eu posso ter o meu" não torna seu vício certo, não justifica seu erro, apenas o individualiza.
Poderia se dizer então, numa redundância meio ignorante, que se todo mundo anda acima da velocidade permitida as placas ou o código de trânsito são frutos da nossa imaginação...
Como se pôde notar, a reflexão do dia foi pra lá de abstrata, mas normalmente algo no dia me leva a escrever... e vamos e venhamos, não custa pensar um pouco, afinal, parece que dentro da caixola a natureza nos colocou equipamento pra ser usado...
No fim, concluindo em aberto... provavelmente é mais bacana ser um errado assumido do que um hipócrita eloquente...



terça-feira, 2 de setembro de 2008

O DIREITO DE NÃO SER INFELIZ PELOS OUTROS

Depois de um pseudo-exílio, eis-me de volta. Nesse afastamento, andei pensando muito sobre o tema trazido pelo título acima. Fatos e fotos da vida se apresentam no teatrão diário que é o cotidiano... e dá-lhe perder tempo em devaneios.
Contudo, todavia, porém e entretanto... vale dividir pensamentos aqui.
O direito de não ser infeliz pelos outros, apesar de parecer meio óbvio, parece haver sido sequestrado, abduzido pela condição miserável de ser humano que às vezes se evidencia na nossa jornada no planetinha.
Histórias pessoais e narrativas ouvidas desenham pra mim, cada vez mais, essa obrigação de ter ligações e de cumprir convenções, que acabam fazendo com que a solidariedade se torne madrasta: quem parece poder ser feliz acaba cedendo um pedaço de sua plenitude às hienas lamuriantes vida afora.
Como os exemplos do cinema parecem ser sempre muito elucidativos, eu acabo, por cacoete e por linha de ação, sempre me remetendo a eles. Vou radicalizar: quem não assistiu o filme espanhol chamado MAR ADENTRO, deve deixar de ser alienígena, sair da caverna sombreada e dar uma olhada no longa.
O filme é uma divagação muito sã sobre personalidades e dilemas, e traz a noção de que aquele que tem todo o direito de ser infeliz nem sempre opta por esse caminho.
Auto-piedade é um saco, pra falar a verdade.
Mas, ao mesmo tempo, parece ser uma armadilha corriqueira... é como chocolate, parece que seduz praticamente todo mundo, menos alguns excêntricos ou quem sabe afortunados.
Não vou entrar no mérito da questão da normalidade ou não das mentes e personalidades, até mesmo porque a excentricidade pode ser divertida e até gerar prazer de companhia... mas, o que não dá pra fazer é ser engolido pela miséria alheia.
Uma coisa é compaixão.
Outra é o apetite da infelicidade alheia.
Ele devora a gente.
O pior de tudo, é que pouca gente consegue enxergar que a vontade de ajudar pode ser legítima, pode ser cristã, budista ou muçulmana (como princípio), mas o direito de continuar feliz mesmo diante da infelicidade alheia deveria ser intocável.
Claro, sempre temos a história do português diante do aquário, onde olhando para o peixe, acabou abrindo e fechando a boca como ele. Quem conhece a piada, lembra do desafio das mentes. A mais forte predomina.
Isso nos leva a uma conclusão e uma verificação quase inevitável: ser infeliz pelos outros parece estar entre o poder de decisão e o domínio da própria mente.
Olhe para os lados.
Sempre, sem dúvida, inescapavelmente, existe alguém se lamentando eternamente pela vida, querendo que a sombra dessa nuvem escura e faminta chamada insatisfação cubra sua vida, porque a dela já está coberta num limite de espaço imenso e sem fronteiras finais.
Sempre existe aquele baixo-astral gosmento, que não pode reconhecer nunca a dádiva de viver, que fica achando que a vida foi sempre injusta, que lamuria a condição de pára-raio das maldades do mundo.
Argh.
Parece defunto que tira a mão da cova e fica puxando seu pé.
Muito já se falou de gente que não quer ser ajudada, é adágio popular usar esse refrão, mas há sabedoria na colocação.
Vamos chamar essa gente de "buracos negros".
Pros buracos negros, só há uma solução: isolamento.
Porque eles não tem fundo.
Um buraco negro não reage por si.
A função dele na vida é engolir tudo, inclusive a luz.
Se teu mundo tá clarinho, ele quer escurecer.
Se você tá animado, ele quer te amuar.
Na verdade, o mais grave, é que esse tipo de gente não faz isso porque planejou. Nem faz por mal, como diriam os antigos. Mas faz.
E daí, diante deles, se planta o dilema: ajudar ou não ? Se envolver ou não ?
Entenda ajudar como um fruto natural da tua compaixão.
Se você consegue ser egoísta, se afastar e mandar ele ir chupar prego até virar tachinha, juro, juro por São Onofre, EU TE ADMIRO!
Porque ajudar, conviver com problema, orientar, ou seja, participar de uma infelicidade que tem cura, é gostoso e é até exercício de humanidade.
Agora, enfiar os dois pés na areia movediça, que só quer te sugar pro fundo sem sequer te oferecer a satisfação de ter gasto energia com aquele problema, é burrice, e das grossas.
Obviamente, todos tem seu calvário.
Quem é resoluto de ajudar porque não consegue se livrar de um dever afetivo ou de uma convenção social acorrentadora, deve também ser objeto de pena.
Mas a esses, ainda, eu sugiro: deixe o coração em casa.
Vá pra labuta da ajuda de modo mecânico.
Guarde o abraço e o afago pra quem tem vontade de se reerguer.
Porque não existe tarefa mais ingrata do que comprar infelicidade por dever de ofício.
Como dizem por aí, ninguém pode dar procuração pro outro viver sua felicidade.
Ninguém poderia dever ou querer também ser infeliz pelos outros.
Ajudar não é compartilhar a infelicidade.
Ajudar é, quando o infeliz mostra querer ser feliz, apostar na obra final, e ter orgulho e amor pela causa de acreditar que bom mesmo é gastar energia com algo possível.
Quando você visualizar um navio encalhado, não tente empurrar ele sozinho pra água, é coisa demais pra você.
Quando você visualizar um bote encalhado, veja se ele não está furado, e daí comece a fazer força.
Barcos furados tem seus donos... e tapar o buraco é o dever do dono do barco. Depois, ele merece ajuda pra desencalhar.
Metaforismos infantis à parte, era isso.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

I read your book, you magnificent bastard !!

Pra quem leu o título acima e não entendeu nada, descrevo a situação: depois de anos, assisti novamente o filme PATTON, onde George C. Scott é o maestro de uma realização cinematográfica que caminha entre a introspecção do mundo de um general que transpira a vocação de guerreiro e ao mesmo tempo exibe ao mundo sua vaidade e sua obsessão por glórias militares.
Como sou da geração que ainda não fez quarenta anos mas também estou bem longe dos franguinhos de vinte anos, me sinto livre pra opinar pra cima e pra baixo. Ou seja, remanesço num velho hábito de achar que quem olha pro futuro não esquece do passado... (com sua permissão, Paulinho da Viola.) Claro que estou falando aqui mais de não achar que tudo que é bom tem cheiro de recém pintado ou tem escandalosos efeitos especiais feitos por computação gráfica.
Em outras palavras, a cena onde Patton derrota Rommel numa batalha específica, onde o ator americano magistralmente entra em frenesi e solta esse grito solitário que nada mais é do que a expressão de uma mente independente e vocacionada, me impressionou de modo que ando falando essa frase sozinho no meu dia a dia, por todo o contexto que ela representa.
Primeira coisa que digo: assistam o filme! Por mais que não se deva dar palpite quanto a perfume, amante e filme (nem sei daonde tirei isso), eu repito: assistam o filme.
Em segundo lugar, cabem as reflexões sobre a aplicação dos conceitos trazidos pela fala da personagem e pelo contexto.
É admirável como o general, ao contrário de muitos militares e líderes da época, se dava a conhecer o inimigo. Me parece que isso já era coisa do Sun Tzu, há uns milhares de anos atrás: conhecer o inimigo (A Arte da Guerra, uma metáfora que os executivos passaram a usar por aí, que os MBAs incluiram em suas aulas... meu Deus, como o mundo é padronizado e pouco criativo às vezes...).
Bem, de qualquer modo, Patton (na descrição do filme), falava diversas línguas e estudava a guerra, era um "cowboy" chucro de um lado e do outro, um esgrimista aristocrata.
Essa dualidade é admirável, rica e genuína. A genuinidade é o que mais salta aos olhos... a essência fica, mesmo viajando entre hunos e visigodos... ou mesmo sendo um visigodo ou um huno, ao se tornar um cavalheiro, vc pode guardar a paixão de ser um huno ou um visigodo. Esses dias ouvi uma profissional de psicologia falando sobre os atletas e sobre a endorfina da atividade deles. Quando eles param, parece que nunca mais conseguem a satisfação do que era trabalhar com o corpo, suar, pular, correr, competir. É bem nesse ponto que a reflexão da frase que ando doidamente repetindo sozinho (seja pelo elan natural da catarse que o filme trouxe, seja pela ontologia dela na minha vida), mas, apesar de meio abstrado, o conceito de que você tem que melhorar sempre mas ainda assim ser você, me soa como canção de ninar ou como brado de início de batalha (pode parecer estranho, mas ambos são reconfortantes).
Me anima, e tenho tentado achar gente no mundo que consegue realmente selecionar o melhor de cada momento antes de passar para o próximo. Nesse ponto acho que ninguém mais está me entendendo, mas o que quero fazer (além da permissão universal de devanear livremente), é repetir o que venho falando para quem está próximo de mim... Ô FALTA DE INTENSIDADE DESSE POVO!
Acho que sem ver o filme, pouca gente vai entender exatamente o que eu quero dizer, mas a irreverência que é natural da verdade em ser o que se é, é um tempero gostoso num mundo de "vida de gado, onde "povo marcado, povo feliz...". (à bênssa, Zé Ramái). Por hoje é só, pessoal.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

O melhor vinho é aquele que vc gosta ?

No finalzinho da tarde de hoje achei uma reportagem perdida no site do UOL, bem interessante. Sei que somos manipuláveis por informações incertas e por "achismos" quase o tempo todo, mas ao mesmo tempo temos que nos resguardar porque parece que tudo que é intitulado "um estudo da universidade de Bimington Hacksfield" (nome acidental criado agora, claro), dá mais credibilidade aos comentários.
Na verdade, como sabemos bem, hoje verdades são as mais convenientes e confortáveis... você pode procurar uma verdade do seu tamanho e da sua cor preferida que você acaba achando...
De qualquer modo, como tenho debatido com algumas pessoas como somos marionetes de sugestionamento e de ninguém mais é original, quando se trata de vinhos eu quero acreditar por muito tempo e com fé que a única maneira de ter o melhor é ser fiel ao que você está gostando. E claro, torcer pra não gostar demais do Mouton-Rostchild ou do Chateau Margaux, se é que você conseguiu bancar simplesmente experimentar...
Bem, dêem uma lida no estudo..
Hablamos despues...


domingo, 25 de maio de 2008

Quem pode lembrar sem medo pode ser plenamente.

Algumas constatações parecem ser tão simples que quando as fazemos até duvidamos de sua verdade.
O que chamam por aí de psicologia barata, os ditados populares e as frases óbvias não merecem tanta atenção exatamente porque se ressentem de uma elitização cultural ou um rebuscamento intelectual... Mas com o passar do tempo você começa a perceber que as verdades inegáveis tem dois caminhos: primeiro, elas estão tão na cara que você duvida delas e as relega a um segundo, a um terceiro plano.
Ali elas ficam, amuadas e enfraquecidas pela dúvida. Depois de algum tempo, quando você flertou com todas as suntuosas e as pretensiosas verdades, glamourosas ou exibicionistas, você acaba passando pelo quartinho escuro onde as óbvias ficaram guardadas, e como não tem muito mais a fazer, senta no meio da poeira e revira as folhas daquele velho caderno (como dizia o Leminski), se reencontrando. Elas retornam, seu segundo caminho... A vingança do pipoqueiro ? Talvez. Mas ainda bem.
Nesta sexta feira sentei com minha esposa e nossa filha (ainda na barriga), e cumpri meu ritual de apreciar um vídeo de música sacra. Como todo hábito muito pessoal, reconfortante e apaziguador.
Em determinado momento, um música que o quinteto de cantores entoava me abduziu.
Como numa cena de ficção espacial, fui engolido passando pelo tempo e pelo espaço, e de repente me vi com dez anos de idade, sentado numa sala tímida, na frente de um toca discos enorme, tinha acabado de tomar banho, no meio daquela sala tão familiar, com a bíblia na mão. Vestia um roupão de tecido de toalha, o som sujo e agradável do disco de vinil, ao fundo, uma mesa posta para a refeição em família, e o culto de sexta feira á noite preparado para começar.
Para quem não entende, os adventistas fazem cultos na entrada e na despedida do sábado, uma celebração de comunhão e um momento onde a família canta, reflete e lê a bíblia e ao final ora reunida e se deseja bom sábado ou boa semana.
A cena que me mostrava sentado naquele sofá fundo, com a face lisa da pele da criança, e a música, a mesma música que agora eu ouvia em meu moderno DVD, já com mais de 35 anos, fizeram um calor gostoso e íntimo se formar na minha barriga, e fechei os olhos para tentar compreender a profundidade disso tudo em mim.
A nostalgia não era a única sensação... mas a compreensão de que grande parte da felicidade que posso sentir hoje, com as pequenas coisas da minha vida que continuam acontecendo, é formada de memórias.
Memórias que às vezes saltam à minha frente, gritando a todos os pulmões: nós te fazemos feliz.
Nesta sexta feira, depois de tantos anos, compreender que o sentimento de complitude, a sen sação de que a vida me abraça com carinho é a soma de tantas sextas feiras. Aquele momento de flash back me esfregou no focinho a conclusão de que a melhor herança que alguém pode deixar pra um ser humano são as memórias.
Cotidianamente observo as dinâmica das famílias, dos casais e dos indivíduos. Trabalho com problemas, ouço problemas, vejo problemas assolando e fragmentando personalidades e assolando patrimônios emocionais.
Em alguns momentos, verifico que mesmo as vidas que individualmente parecem viáveis, que cumprem projetos de sucesso e que diante da sociedade parecem impressionar, carecem em determinados momentos dessa bagagem de boas memórias.
Ok, ok, não vamos caminhar naquela velha coisa de procurar falhas na vida alheia.
A minha vida é alheia pra outros, e sim, é também cheia de falhas.
Mas eu lanço facilmente um desafio a todos: minhas memórias contra as suas, pode ser no bafo, na búlica ou no pião... eu acho que ganho.
Não quero parecer tolo ou egocêntrico, ao contrário, sabem que estou brincando ou figurando minhas palavras com o desafio proposto, mas, mas... tanta gente que sorri na parede da minha memória (Belchior, com sua permissão), merece dividir comigo a sensação de ter me feito feliz. Ao mesmo tempo, merece um retrato pintado com o capricho e a dedicação de um herdeiro: o herdeiro de um baú de memórias, um baú entalhado e que carrego com prazer vida afora, e que me deu duas capacidades: amar e pensar.
No mais, sou meio ruinzinho, mas nesses dois talentos, me sinto bom à beça... hehe.
Como é inevitável sugerir e escolher uma moral da história, vou palpitar: no Natal, dê memórias. No aniversário: memórias com fita vermelha. Na formatura: uma caneta bonita e uma memória bico de pena. E no casamento, uma baixela de prata e um jogo de memórias de jantar... assim se fazem pessoas viáveis.
(Dedico esse post à meu pai, minha mãe, minha irmã, minhas tias Marle e Mirtis e meus amigos Michel, Henry e Sandro... eita passado bom !)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Entre pães Fragozo

Depois de dez dias sem postar nadica, ainda sou desavergonhado de lançar aqui uma antiga receita que "criei" (ah, o uso indiscriminado deste verbo é um perigo!). Como entre amigos e colegas me diverti com um título nonsense para a receita (acho que o termo "entre pães" acaba sendo tão lusitano quanto o Fragozo), acho que vale a pena tornar público o modo como vejo uma receita sendo concebida e depois executada. Bisous pour toute.

ENTRE PÃES FRAGOZO

Ingredientes

CARNE (ou mistura, ou “sustança”)

300 gramas de filezinho suíno (é o mignon do porco, hoje você encontra em qualquer supermercado)

1 colher de chá de endro

2 colheres de chá de mel

1 colher de chá de açafrão da terra (conhecido carinhosamente como cúrcuma)

1 colher de sopa de vinagre de maçâ

Sal

Pimenta do Reino (moída na hora, pelamordedeus !)

PÃO

Ciabata… fresco, o mais largo que você achar, e com uns 30 cm de comprimento seria perfeito.

Contudo, tenho me virado com o que os supermercados oferecem na correria do fim do dia somada à fome indevida de quem não fez lanchinho com frutinha light de tarde… então, qualquer pão de casca dura com coração mole é boa pedida.

MOLHO

1 colher de sopa de maionese light

1 colher de sopa de iogurte desnatado

Cheiro verde picado

1 colher de chá de mel

1 colher de chá de vinagre de maçâ

Pimenta do reino a gosto (ou a contra-gosto)

1 boa pitada de cúrcuma

QUEIJO

Um Minas Frescal Normal (nada de light, a diferença de calorias é pura hipocrisia nesse caso, e precisamos que ele derreta !)

O melhor que usei até hoje é da Rio Bonito…

Fatias grossas, nada de espessura de máquina de padaria.

SALADA

Agrião bem ardido ou rúcula recém-nascida

TOQUE DE QUEM TEM PACIÊNCIA

Champignon Paris em fatias grossas

1 colher de sopa de manteiga

1 colher de chá de azeite de oliva

1 cebola (se achar a roxa, melhor)

Sal

ACOMPANHAMENTO

Um bom Merlot… a contra senso, nos 14 graus centígrados

MODO DE PREPARO

Lambuze o filezinho (peça inteira) bem bagunçadamente, dentro de uma tigela beeem maior que ele (nada de trabalhar apertado !)

Esquente uma frigideira, preferencialmente de T Fal, Teflon, ou, propaganda à parte, antiaderente. (se não tem, compre uma grande e pesada… peso é documento quando se fala em panelas)

Ligue a super mega coifa que você tem em casa (ou prepare os incensos pra depois de preparar a carne), e “chapa-quente” (muito quente), toste por fora o filezinho lambuzado até que ele crie aquela maravilhosa casca brilhante meio dourada. Não fique virando o filé o tempo todo, ele não gosta de “bulição”. Via de regra, se do lado de cima perdeu o vermelho escuro da carne fresca e começou a suar, vire pra torrar do outro lado. O filé mignon suíno é à prova de incautos… dificilmente enrijece, mas não abuse: nada de torrar até ficar seco, senão vai ter que tomar Merlot demais (isso não é uma sugestão pra embriaguez !)

Enquanto a carne sela, grelha, doura, salteia (é assim meio indefinido mesmo), salteie (neste caso é bem definido) os champignons com a manteiga, a cebola e o azeite numa outra panela.

Não esqueça que o champignon é quase o Bob Esponja Calça Quadrada, ou seja, vai chupar tudo que houve de líquido no início no salteamento, mas depois vai devolver quando atingir uma temperatura maior. Por isso, nada de ficar esbanjando o maravilhoso azeite de oliva grego extra-royal-premium virgem que você usa só porque de repente a panela pareceu seca.

O pão, se não tinha sido assado nos 15 minutos anteriores da sua compra, merece um pouco de forno bem morninho depois de se umedecer muito gentilmente a casca (ele volta à vida !!)

As folhas frescas, lavadas com água e vinagre de álcool (sem torneira correndo ! vamos criar consciência ecológica e usar uma bacia ou “tapoé” grande cheio de água), esperam ávidas para compor o prato (sanduba tb pode ser chamado de prato)

Cuidou pra que não queimasse a carne e o Champignon ?

Colocou o Merlot na geladeira pra ele tomar o famoso “susto” e ficar fresquinho ? (ou você tem adega climatizada, mas que esnobe !!)

Bem, o molho também deve estar prontinho, batido numa pequena bowl de vidro com um mini-fouet (vixi, aqui já estamos no limiar da baitolagem)…

Abra o pão (vai estar fumegando por dentro), corte a carne em fatias suculentas (o filezinho é baixo, não corte fatias finas demais pois ele é bem macio e na mordida ele vai ceder).

Faça um leito de molho (sem exagero !!), coloque as fatias de carne por cima, depois arrume o champignon salteado com as cebolas, e o queijo (que você deverá ter derretido na mesma panela do champignon, os melhores tostam por fora e ficam cremosos por dentro).

Na fatia superior do pão ajeite as folhas (eu massaroco tudo mesmo, pra não ficar caindo no colo quando a gente come em frente da televisão).

Abra o Merlot, faça o dengo de dar aquela analisada no bouquet, na cor e na gota, e com o sanduíche bem quente na sua frente dê o primeiro gole deixando o vinho cobrir a língua toda (feche os olhos, fechar os olhos sempre potencializa os outros sentidos sem a visão comprometendo).

Espero que você tenha cortado o Entre Pães no meio, corrigido o sal de tudo do jeito que você gosta (cuidado no molho… maionese tem sal), e que o pão não tenha torrado demais pra machucar o céu da boca.

Por fim… coma com atenção e flerte com cada mordida… senão não teria sentido você ler tudo isso pra pegar uma receita de sanduba… se você curtiu, provavelmente a vida é mais colorida pra você do que pra maioria dos “amigos da rede Globo” ou pros súditos dessa vida madrasta…

Abraços

ELMO

segunda-feira, 14 de abril de 2008

MANTEIGA COM PIMENTA E UM TOQUE DE CARNE

Não pensem que só como e durmo nessa vida... mas a coceira que me dá em comentar uma refeição que faço por aí é grande e irresistível. Domingo, almoçando no Maccheroni, que fica ali na Manoel Eufrásio, Ahú, resolvi experimentar o steak poivre, que já disse um crítico ou gourmand famosíssimo, deveria ser o parâmetro pra se medir a qualidade de uma cozinha. Parece sutileza demais, mas como dinheiro não é pra se jogar fora, acho que uns poucos reais a mais acabam servindo pra garantir, em algumas vezes, muito mais qualidade. Não me entendam mal, o filé mignon não estava ruim, mas fazia muito tempo que eu não via alguém derramar tanta manteiga clarificada num molho. E colocar tanta pimenta verde. Ok, ok, vivemos num mundo de Mangiares Felices e de Lelis de um lado, e de Famiglias Calicetis e Portas Romanas de outro (com o perdão dos mais técnicos nas críticas, estou sendo PESSOAL nessa divisão!), mas sabe-se que em suma uma trattoria ou uma cantina são mesmo abastança com pouca finesse. Contudo, isso não é desculpa pra ser engordurado ou tosco demais. Quando frequentei o rápido banquinho escolar da gastronomia, vi o chef Dirceu Felix realizar um molho poivre vert com demi glace de base bom como nunca comi em nenhum restaurante do mundo. Mesmo que houvesse a ingênua admiração de aluno e a fome de início de noite, descontos dados, um bom mignon não merece certamente aparvalhar-se diante do transbordar de manteiga num molho branco que, quando esfriou um pouco no prato, fez seu próprio laguinho amarelo escuro. É, tudo isso pra dizer que, vai ficando exigente pra ver como você não se entrega mais emocionalmente aos esforços de um regente de cozinha. Subjetividades à parte, existem mesmo restaurantes de cozinheiro e restaurantes de chef. A diferença dá pra sentir no molho de pimenta verde... como diria o ditado.